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Boquinha noturna Se você assalta a geladeira à noite, talvez esteja sofrendo da síndrome da fome noturna. Ela compromete o sono e o humor, além de aumentar consideravelmente o peso na balança. Saiba como se livrar dessa doença que afeta 10% dos obesos
por Gabryel Strauch

A empresária Pietra Roche, 33 anos, não sentia apetite pela ma- nhã, dormia pouco e, à noite, assaltava a geladeira. Fez alguns exames, procurou ajuda e obteve o diagnóstico: síndrome da fome noturna. Pois é, esse distúrbio, que já tem nome catalogado, foi descoberto em 1955 e vem sendo muito estudado nos últimos anos. Seus sintomas mais freqüentes são a fome noturna, com ingestão de mais de 50% das calorias consumidas durante todo o dia, no período entre 8 h da noite e 6 h da manhã, insônia inicial, anorexia matinal, alterações de humor, depressão, ansiedade e falta de energia.
Estudiosos acreditam que essa síndrome tende a ser desenca- deada pelo estresse e que seus sintomas devem diminuir quando o problema é aliviado. O endocrinologista Filippo Pedrinola, da Clínica Pedrinola e Rascovski, de São Paulo, explica que essa doença acomete 1,5% da população geral e está presente em 10% dos obesos e 27% dos portadores de obesidade mórbida. “As pessoas que sofrem desse mal costumam não tomar café da manhã e ficam várias horas sem comer após despertar. Consomem muitas calorias durante a noite, em vários episódios, e beliscam principalmente alimentos ricos em carboidratos refinados e gorduras (doces em geral, pizza, frituras etc.), que são altamente calóricos”, conta o especialista.
Os comedores noturnos sentem o impulso de comer, apesar de uma falta de fome percebida. Alimentos como macarrão e al- môndegas costumam ser devorados na própria panela. As pessoas afetadas também podem apresentar comportamentos estranhos e ingerir misturas um tanto diferentes como comida de gato. “Embora esse transtorno alimentar ainda seja pouco conhecido, os relatos de pacientes mostram que eles são capazes de levantar-se várias vezes durante a noite para atacar a geladeira. Acredite: há quem acorde até seis vezes”, revela a doutora em Psicologia Clínica Célia Horta, espe- cialista em Distúrbios Alimentares pela Universidade de São Paulo (USP). Segundo ela, à noite, quando tudo se acalma e há menos dis- tração, os compulsivos se encontram teoricamente mais vulneráveis. “É quando correm para a geladeira a fim de compensar suas frustrações”, resume.
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Bife na madrugada
“Eu não resisto. Já fritei um bife para devorá-lo no meio da noite. E isso jamais aconteceu em outro momento. Coisas que eu não gosto no dia-a-dia, na madrugada se transformam em verdadeiras tentações”, revelou um paciente da psicóloga Célia Horta. Quem sofre desse mal, não consegue controlar o impulso. “Parece que sou um drogado. Até me bate o desespero”, revela o vendedor Ulisses Di Domenico, de São Paulo. Quando se deu conta da doença, ele estava com 25 anos. Hoje, tem 47. Nesse meio tempo, emagreceu e engordou várias vezes. Começou a fazer exercícios físicos e conseguiu baixar o ponteiro para 86 quilos, mas os ataques noturnos à geladeira atrás de alimentos altamente calóricos atrapalharam o esforço que vinha fazendo. “Já cheguei a comer uma pizza de escarola inteira”, admite o vendedor, no auge dos seus 96 kg. A medicina reconhece que há, pelo menos, dois causadores desse mal. Um deles é a melatonina, responsável pelo início e pela manutenção do sono. O outro é a leptina, que é produzida pelo tecido gorduroso e vai agir no cérebro, nos centros da fome e da saciedade. “O desequilíbrio dessas substâncias é que faz Ulisses acordar na madrugada com aquela vontade de devorar alguma coisa”, explica o endocrinologista Filippo Pedrinola. Sob o ponto de vista neuroendócrino, uma pesquisa constatou que os comedores noturnos possuem níveis mais altos de cortisol (hormônio do estresse) durante o dia e índices baixos de melatonina (hormônio que regula o sono) à noite.
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